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maria

Experiência

Leu sobre o livro na biografia de um escritor que admirava, como tendo-o influenciado e quis encontrá-lo. Não o conseguiu nas livrarias ou via net. Alguém falou‑lhe duma livraria especial em Lisboa, aproveitou uma boleia e chegou lá, perto da hora do almoço.

Era realmente diferente, com uma bicicleta suspensa no tecto, dois andares, estantes e recantos para leitura. Quase sem procurar foi atraída para um livro antigo. Era o que queria, mas estava em inglês. Resolveu almoçar – uma fatia de tarte e um café - enquanto decidia se o ia levar ou não. Sentou-se numa mesa afastada. Abriu a capa e apercebeu-se que o livro estava ainda lacrado. Vencida pela curiosidade desculpou-se com a ideia que iria cortar as páginas tão cuidadosamente como ninguém mais faria.

Cortou a primeira folha e surgiu-lhe não uma dedicatória, mas um aviso:

“Não inicie a leitura se não estiver preparado para deixar para trás tudo o que até agora conheceu.“

Com a faca cortou o lacre da página seguinte. Novo aviso:

“Se não estiver preparado para deixar tudo o que até agora conheceu não leia em voz alta a frase que se segue.”

Não resistiu, e leu a frase embora em voz não muito alta. Sentiu uma vertigem. Pensou se seria o anunciar de uma enxaqueca ou a fome por estar em jejum. Olhou para a frente, enquanto a visão se fixava. Sobre a mesa, a xicara de café aparecia-lhe como uma caneca de chá. Ao lado, a máquina de expresso desaparecera. Apenas livros antigos a rodeavam, ao invés das pessoas que antes ali se encontravam, entrevia vultos mais baixos e errados, e estranhamente escurecia.

Nova página:

 “Poderá ainda voltar atrás se repetir a frase ao contrário.”

Fê-lo. Largou o livro e fugiu.

Voltou alguns dias depois, mas nunca mais encontrou o livro.